quarta-feira, 9 de maio de 2018

Utilidade do blog?


Quando se tem um blog sobre um cancro raro, não se espera alcançar grandes recordes de audiência, nem as receitas de publicidade que algumas bloggers conseguem por esse país fora. Os números do acesso para leitura são mais ou menos constantes. Vou escrevendo, partilhando ansiedades, medos, esperanças e informações que podem ser úteis a alguém, eventualmente.E quando sei que fui útil, fico feliz, caramba.

O feedback da “audiência” é tímido, mas tão enriquecedor. 

Saber que a minha experiência, a minha falta de pudor em falar de mamas velhas e novas, de cancro, de medos e de esperanças pode ser um alento num momento menos bom de alguém é o que me faz continuar a escrever, mesmo estando já no 4º ano pós-tratamento choque.  E quando me dizem que o 5º ano é a meta, eu sorrio e esclareço…o cancro inflamatório da mama deve ser seguido até ao 10º ano. Um pouco mais e o desgraçado entra para a universidade.  

 Vou recolhendo informação, conselhos a nível de alimentação, desporto, estilos de vida, mas por vezes falta o tempo para sentar e escrever.  Em breve, uma nova etapa…vou entrar no mundo dos “tatuados".  

Bjinho,
Vera

PS. A título de curiosidade: há 4 anos atrás, meados de maio e ainda em quimio (ainda faltavam 4 para a veia) , e já começava a renascer a minha bela cabeleira :)
É a coisa que menos nos importa, mas ficamos muito felizes quando sentimos que temos qualquer coisa a ocupar o seu devido espaço!



 

domingo, 29 de abril de 2018

Os chamados "cagaços"

A minha vida enquanto sobrevivente oncológico recente é vivida com a intensidade possível, com a noção do dever e do poder nas medidas certas, com a certeza que o mais importante da minha vida é a minha família e tudo o que a eles diz respeito.

A minha vida enquanto sobrevivente oncológico recente também tem os chamados "cagaços". Nas últimas 3 semanas comecei a notar algo diferente no peito.... Há 2 semanas, depois daqueles dias a tentar convencer-me que estava a sentir coisas, acabei por ir fazer uma ecografia e uma mamografia. Não vale a pena ignorar o que se consegue apalpar :)

Algo me dizia que não era "mau", mas mesmo assim, fora de normal. O medo que algo volte e nos leve desta vida é forte e será sempre um companheiro a respeitar. Ter medo faz-me viver mais e melhor, faz-me viver as coisas com outra visão. Faz-me sair a horas do trabalho para ir buscar a minha filha à escola, faz-me ter prazer em acompanhá-la nas 1001 atividades, faz-me entender melhor as prioridades no dia-a-dia.

O cagaço tomou a forma de pequenos caroços/ massas, que começaram a surgir nas zonas "trabalhadas" na cirurgia de fevereiro. Realmente, esta cirurgia ainda não tinha dado chatices, a pele aguentou-se bem com novos cortes e as marcas destas últimas lipoaspirações desapareceram depressa. Vieram agora as chatices. Os exames mostraram pequenas bolsas de gordura, tipo quistos, que se formaram nos locais onde se fizeram os enxertos de gordura, que possivelmente contém tecido necrótico....basicamente gordura que não foi devidamente absorvida/integrada e o corpo encapsula-a como medida de defesa. O meu cirurgião plástico deu-me o nome médico para isto, mas já nem consegui absorver essa informação. Chamem-lhe o que quiser, menos cancro!

Vamos agora acompanhar isto, se continuar a crescer, poderá ter de ser "aspirado" ou qualquer coisa que me soou a "ouch", mas quero acreditar que o meu organismo se vai livrar disto. Acho que depois de o cirurgião me ter visto na sexta-feira, isto até começou a "desinchar"...ou isso, ou foi mesmo o cagaço que se começou a desvanecer...

Bjinho,
Vera










quarta-feira, 21 de março de 2018

Illiabum & felicidade


No fim de semana passado, a Rita viveu uma das grandes emoções da sua vida.
7 anos de gente desta mini-ilhavense, que sente Ílhavo e o Illiabum como seus, como se a herança do mar e da história de Ílhavo já lhe pesassem no corpo.

Ela, que se diz ser a única verdadeira ilhavense cá em casa, tem um amor ao clube onde joga basquetebol, que muitos poderiam considerar excêntrico, mas no fundo não é. É da personalidade dela.

Assistir aos jogos em casa e alguns fora, na medida do possível, é um prazer para ela. Não precisa de ser sempre a equipa sénior. Gosta de ver todos, até outras equipas, logo que haja bola e cestos. O travão temos de ser nós a colocar, senão abancamos de vez num pavilhão.

Mas ver os jogos da taça, em Braga, num lugar quase dentro de campo (graças à Prozis) e viver aquela intensidade e a entrega da nossa equipa, quase a levou às lágrimas no 3º período, quando o Benfica começou a ganhar terreno. Ela tinha mesmo a convicção de que íamos ganhar e até tinha tido lá uma conversa íntima com o Bom Jesus. Só para garantir que nada corria mal.

Correu bem, muito bem. Fizemos a festa no meio dos VIP’s, que pouco se manifestavam, até porque muitos nem o podiam fazer...árbitros, membros da federação, etc...
 
Ouvíamos, em tom baixinho, elementos de uma outra equipa vencida no dia anterior a torcer pelo Illiabum, outros a ficarem espantados com os nossos jogadores, tão jovens e tão maduros ao mesmo tempo.

O sítio era ótimo para se assistir ao jogo, mas faltou-nos o aconchego dos adeptos amarelos e roxos, aquele poder que emanava da bancada chegava cá abaixo e impressionava pela sinceridade do “acreditamos em vocês”.

Foi bonito o jogo, a festa, a receção na rua e no pavilhão. A Rita celebrou e juntou-se ao seu treinador e equipa em delírio. Apareceu nos jornais, tipo emplastro no meio da equipa, a sorrir com aquele ar de felicidade pura e inocente.

A taça é da equipa com todo o mérito, mas foi partilhada com os adeptos pequenos e grandes. E nós agradecemos e lá estaremos na sexta.

Bjinho
Vera

Ps. Um post sem falar de cancro, cirurgias ou alimentação...espetáculo!

sexta-feira, 16 de março de 2018

Eu e as juntas

Na minha primeira comparência a uma junta médica em 2014, saí incrédula...aquele "então, tem cancro" caiu-me assim um bocadinho mal...nem sei como contive a minha língua de refilona...não, meus amigos, estou careca, amarela e com o corpo em guerra porque me apetece. É fashion!

Calei-me, engoli em seco e respondi que sim...mas talvez os olhos tenham dito o resto. Da maneira que andavam vidrados com a quimio, talvez até isso se tenha encoberto. Várias juntas se somaram a esta, mas já com menos esplendor.

Hoje fui a uma nova junta...quatro anos depois, num sítio diferente, o mesmo estilo. O mesmo aglomerado de gente, uns com cara de doentes, outros com ar de perfeita saúde (tipo eu), uns a olhar para o relógio, uns a queixar-se da chuva, outros do sol, outros da vida e dos atrasos constantes neste tipo de "eventos".

A prova foi superada com o sucesso que se espera nestas coisas...mas a reter a parte da conversa sobre onde me tinha tratado, o que tinha feito e onde era seguida atualmente....ui, que snob lhes devo ter parecido. A moça sabe o que fez, sabe o que deve fazer a longo prazo, sabe que medicação faz, sabe os efeitos secundários e sabe as estatísticas...até sabe o que o oncologista escreveu no relatório clínico....sim, sei tudo. Só não sei os números do euromilhões :)
Afinal de contas, é a minha vida que está em jogo, certo?

Saí com a promessa de voltar em 2020.
Promessas são para cumprir.

Bjinho,
Vera

PS.

terça-feira, 6 de março de 2018

Dia 7 de março

O dia 7 de março é importante para mim.

Faz hoje um ano que fiz a primeira cirurgia de reconstrução...e sinceramente parece que foi ontem. Nem parece que entretanto já fiz mais duas. Lembro-me do sufoco de querer tossir e ter medo das dores, dos pontos rebentados, dos pensos intermináveis, das fibroses, das imensas m***** que correram menos bem...e de repente passou 1 ano.

Bem, estou de parabéns, ou pelo menos parte do meu corpo está!

Amanhã, ou melhor, daqui a umas horas, consulta de cirurgia plástica para avaliação da última intervenção e definição do próximo passo. São sempre processos demorados, com cicatrizações delicadas e a pressa é inimiga da perfeição, por isso façamos as coisas com calma.

Mas o dia 7 de março também me traz bons "feelings". Hoje a nossa tia Sisse faz anos!
É uma princesa espetacular. Toda a gente devia ter uma assim na sua vida!

Muitos parabéns Sisse!

Como não pode haver fotos da "outra aniversariante", oh nós tão lindas no teu casamento!

setembro de 2014

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Miau...

Gatos...nunca fui fã de gatos.

Lá por casa havia imensos animais, nunca gatos. Não havia empatia familiar com esses bichanos nessa altura e nunca a criei desde então. Aliado a isso, sou alérgica ao pêlo dos bichos, farto-me de espirrar e fico mesmo aflita se estiver em casa de alguém com gatos. Nada a ver com a limpeza da casa, note-se. Basta o bichano ter andado por lá que a minha real penca dá por ela e desata a espirrar.

Mas pronto, hoje abro uma exceção para a Troubles. Durante o tratamento do cancro, fez questão de se aliar e demonstrar o seu apoio. Agora, nesta fase de reconstrução da normalidade, não é que a bichinha conseguiu transmitir novamente uma bela mensagem e sempre em inglês :)

Digam lá que quem tem amigas destas não é feliz, mesmo com uns atchins pelo meio?
Love you Sisse.


Bjinho,
Vera

Ps. Amanhã é dia de tirar os pontos...fingers crossed, please!

sábado, 3 de fevereiro de 2018

3ª cirurgia


Mais uma cirurgia, desta vez já com o pensamento que é a última (ou deve ser a última consoante os resultados). Aperfeiçoamentos a fazer nestas situações há sempre, mas também temos de saber quando parar, não vá virar uma plastic freak.

Dei entrada no Hospital dos Lusíadas às 7h30, saí por volta das 13h. Quase mais rápido ir ao bloco operatório do que ir às compras. Implicou mais uma anestesia geral, mas bem mais leve desta vez, até porque o tempo no bloco foi bem mais reduzido do que nas vezes anteriores. Demos uns últimos retoques, em jeito de bate-chapas a recuperar uma amolgadela de um carro novo e, tirando um outro acrescento ainda a fazer em breve, vamos dar por encerrada esta fase de reconstrução da mama. É impressionante o trabalho do cirurgião plástico, este esforço para manter na mulher mastectomizada a sensação de pseudo-normalidade.

Perguntaram-me muitas vezes, diretamente, porque estava eu a sofrer isto tudo só por causa de uma mama. Tanta gente que vive só com uma mama, ou sem as duas…seria pelo marido…pela filha…pela sociedade?

Não, foi por mim mesmo, e talvez, em segundo plano, um pouco pela Rita, porque na altura da mastectomia lhe disse que depois o médico fazia outra mama. Era preciso desvalorizar aquele ato naquela altura, tendo ela 4 anos.

Porque passar por 3 cirurgias, duas incluindo lipo-aspirações, para agradar a outros seria mais um sinal para me internarem. Estas coisas doem, deixam-nos todas pisadas e cheias de nódoas negras. Como raio fazem isto só para ficar sem as banhocas? 

 


Tirando o incómodo dos hematomas, os buraquinhos espalhados pela barriga (por onde fazem as lipos) e os pontos no peito, está tudo a correr normalmente e espero recuperar bem melhor e mais depressa desta vez.

Bjinho
Vera